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Agricultura regenerativa: suas raízes na agroecologia e o legado dos pioneiros

Paisagem agrícola fotografada por Vicente Sampaio

Foto: Vicente Sampaio.

No cenário agrícola atual, em rápida evolução, a agricultura regenerativa surgiu como um farol de esperança, prometendo soluções sustentáveis para nossos sistemas alimentares globais. Para apreciar de verdade a sua importância e compreender os conceitos que a fundamentam, é essencial entender suas raízes no solo rico da agroecologia e reconhecer o papel fundamental de seus pioneiros.

A agroecologia, termo cunhado no início do século XX, é ao mesmo tempo uma disciplina científica, um conjunto de práticas e um movimento social. Ela parte do entendimento de que os sistemas agrícolas fazem parte de um contexto ecológico e socioeconômico mais amplo, o agroecossistema. Essa abordagem tem como princípios fundamentais a biodiversidade, a reciclagem de nutrientes, a sinergia entre plantas e animais e a conservação e o enriquecimento de recursos naturais como solo, água e ar.

Os pioneiros

Vários pioneiros estabeleceram as bases para integrar métodos agrícolas e princípios ecológicos:

  • Sir Albert Howard (Inglaterra, 1873–1947), um dos primeiros a promover práticas de agricultura orgânica após suas viagens à Índia;
  • Rudolf Steiner (Áustria, 1861–1925), criador da Agricultura Biodinâmica;
  • J. Russell Smith (Estados Unidos, 1874–1966), conhecido por suas contribuições à agrofloresta;
  • Jerome Irving Rodale (Estados Unidos, 1898–1971), fundador da The Soil Health Foundation, que depois se tornou o Rodale Institute, organização que cunhou o termo “agricultura regenerativa” nos anos 1980;
  • Masanobu Fukuoka (Japão, 1913–2008), criador do método de Agricultura Natural e de métodos de reflorestamento de desertos;
  • Francis Chaboussou (França, 1908–1985), criador da Teoria da Trofobiose;
  • André Voisin (França, 1903–1964), que propôs o Pastoreio Racional;
  • Bill Mollison (Austrália, 1928–2016), criador da Permacultura com David Holmgren (Austrália, 1955).

E muitos outros ao redor do mundo. Miguel Altieri, talvez o mais influente dos pioneiros modernos, formalizou a agroecologia como disciplina científica, articulando seus princípios e práticas.

No Brasil, Ana Maria Primavesi e Ernst Götsch deram contribuições significativas. Primavesi (Áustria, 1920–2020) se dedicou à saúde do solo, em especial às funções dos microrganismos na manutenção da fertilidade e no balanço de nutrientes. Götsch (Suíça, 1948) desenvolveu a agrofloresta sintrópica, que revolucionou a maneira de pensar a interação entre agricultura e ecossistemas.

Da agroecologia à agricultura regenerativa

Esses pioneiros prepararam o terreno para o que hoje reconhecemos como agricultura regenerativa, nascida da fusão entre os princípios da agroecologia e as práticas da agricultura convencional. Não se trata apenas de manter os recursos, mas de melhorá-los ativamente: revitalizar a saúde do solo, aumentar a biodiversidade, restaurar ecossistemas e fortalecer economias locais e comunidades rurais.

As origens agroecológicas da agricultura regenerativa ficam evidentes na sua ênfase em trabalhar com a natureza, e não contra ela. Técnicas como plantas de cobertura, plantio direto, uso intensivo de microrganismos benéficos e agrofloresta descendem diretamente dos princípios estabelecidos por esses pioneiros. Essas práticas melhoram a saúde do solo e também apoiam o sequestro de carbono, a conservação da água e a biodiversidade.

Além disso, a agricultura regenerativa leva adiante as dimensões sociais e éticas da agroecologia. Ela promove práticas trabalhistas justas e o engajamento comunitário, reconhecendo que a agricultura sustentável diz respeito tanto às pessoas quanto à terra.

Nossa busca por sistemas alimentares sustentáveis é tanto uma jornada contínua quanto um retorno a princípios que nutriram a humanidade e o planeta por séculos.

À medida que avançamos, é vital lembrar e honrar as raízes da agricultura regenerativa na agroecologia e o legado de seus pioneiros.

O surgimento da agricultura regenerativa é um testemunho dos princípios duradouros da agroecologia e do impacto desses visionários. Diante dos desafios do século XXI, essa combinação de sabedoria tradicional e prática inovadora oferece um caminho para um mundo mais sustentável e justo. Vamos abraçar esse legado enquanto trabalhamos por um futuro regenerativo.

PS: a bela foto que ilustra o artigo é do meu amigo Vicente Sampaio.

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